Escolas de Pensamento

Aos Doutores

Mateus Katupha e Lourenço do Rosário,

Intelectuais de uma formação consolidada, com os

quais aprendi a navegar em muitos e vastos rios académicos.

Reflexão XIX:

"Os grandes sistemas do pensar, da ciência, as grandes

correntes literárias e artísticas, os grandes ideários políticos ou

religiosos. Tudo passou. Restos detritos fragmentos.

Toma o teu bocado e senta-te no vão de uma porta a comê-lo."

Vergílio Ferreira

No exercício da minha actividade intelecto-acadêmico, tenho-me perguntado por várias vezes: “a que escola de pensamento pertenço?” Tem-me sido difícil, confesso, responder à minha própria pergunta, mas uma e outras vezes, tenho ficado na corda entre as escolas onde recebi a minha formação académico-intelectual e nas que leccionei. Mas será que basta ter passado por Universidade Eduardo Mondlane, Instituto Superior de Relações Internacionais, Monash University, ou por extensão, A-Politécnica, para me considerar pupilo dessas escolas? E será que o facto de serem instituições de ensino, implica automaticamente que tenham ou sejam escolas de pensamento?

Quando estudante, entrei em contato com diversas escolas de pensamento: de Frankfurt, de Toronto, de Chicago, de Paris; de Marx; de Adam Smith; de David Ricardo; de Thomas Malthus; de John Stuart Mill, entre outras. Essas escolas ou correntes de pensamento são, na sua essência, o resumo de modus vivendi, filosofias de ser-estar de determinadas sociedades; visões não distanciadas de realidades vivenciais; e até certa medida, são cérebros proponentes de propostas de soluções aos problemas que assolam as sociedades ou guiões de como compreender os fenómenos do dia-a-dia do Homem. Elas impuseram-se no mundo por esforços planificados, aturados, consentidos e visionários.

E olho para o panorama intelecto-acadêmico de Moçambique. Haverá uma escola moçambicana de pensamento? O que distingue as Universidades moçambicanas entre si, para além dos nomes que ostentam e dos espaços geográficos que ocupam? Qual é a real diferença, por exemplo, entre um Curso de Ciências Sociais ou de Gestão da UEM e da A-Politécnica(?); de ensino de Línguas na UEM e na UP(?). E qual é a mais-valia da disciplina da Economia leccionada no ISRI da que é na UEM? Quais seriam os pilares diferenciais da Sociologia dada na UEM e no ISCTEM?

Essas perguntas são apenas semi-perguntas de uma grande questão: HAVERÁ UMA MANEIRA PROPRIAMENTE MOÇAMBICANA, OU INSTITUCIONAL ACADÉMICA DE TRATAR OS ASSUNTOS DITOS UNIVERSAIS? Ou por outra, haverá esforço de se moçambicanizar a Ciência Política, o Direito, a Sociologia, a Gestão, etc., pondo elementos típicos das nossas culturas diferenciadas, ainda que reclamando a unicidade?

Há quem diga que as escolas de pensamento já existem e cabe-nos a tarefa de as usufruir. É verdade que não se pode inventar de novo a roda, mas a reprodução mecânica e papagaica do ‘já dito’ prejudica em muito o nosso desenvolvimento.

Há que conjecturarmos uma escola moçambicana de pensamento que possa responder aos desafios peculiares da nossa sociedade. Há que construir o ‘pensar’ Moçambique através de teorias diversas, mas sempre com as lentes nacionais moçambicanas.

Preocupa-me a nossa maneira moçambicana de explicarmos tudo o que nos passa pela mente e acontece no nosso dia-a-dia sob as teorias dos outros, no lugar de moldarmos o universalmente já aceite para a nossa realidade. Preocupa-me a busca desmedida dos exemplos dos outros para explicarmos teorias escolares, deixando para a imaginação dos discentes o nosso viver quotidiano.

A sociedade moçambicana de hoje, pós-guerra e pós-socialismo, está repleta de acontecimentos que dão para muita ciência, muita literatura, muita produção teórica. No lugar de incentivar os universitários, após os quatro ou cinco anos escolares, a sentarem-se nas bibliotecas, seria útil mandá-los viajar pelo vasto Moçambique e recolherem dados para enriquecer a antropologia, a história, a arqueologia, a geografia, a economia, a sociologia deste país.

Há que reflectirmos numa escola puramente moçambicana de pensamento para os desafios próprios de Moçambique. Há que pensarmos Moçambique com o olhar-e-marca moçambicana. E não basta a multiplicação das Universidades, mas que elas sejam, de facto, espaços para a difusão de conhecimentos, da criatividade, da investigação e da educação permanente do Homem.

Há urgência em se explicar, por exemplo, por que é que as mulheres africanas, quando grávidas, comem, no cômputo geral, areia, cubos de gelos, arroz cru, entre outras coisas. Quais seriam as teorias medicinais, antropológicas e sociológicas para esse comportamento? Será que as portuguesas ou as israelitas fazem o mesmo? E se não fazem, quais são os comportamentos diferenciados e coincidentes?

Há que pensarmos Moçambique com o pensamento moçambicano! Há que reconstruirmos África com a marca-África! Sendo assim, é razão para se dizer: Think Locally, Act Globally. Think Tribally, Act Universally!

Texto retirado do livro MOÇAMBICANAMANIAMENTE - TRINTA E NOVE CRONICONTOS

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