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Férias poéticas



Por um tempo,

congelei todas as palavras

que me recordavam do Eu em ti

todos os versos

que soavam aos teus sonhos

todas as metáforas

que exaltavam a tua beleza

todos os pensamentos

que sorriam para a tua ausência

todos os destinos

que me indicavam a tua chegada

todos os voos

que me levaram ao teu Porto

todos os beijos

que sabiam a mel dos teus lábios

E cheguei a reunir-me com as letras

que escrevem o teu nome

para se anunciarem avariadas

Por um momento

fechei-me no meu mundo

desliguei o fogão poético

e nenhum poema saiu do forno

Parti propositadamente as chaves da porta

que nos levavam ao nosso quintal de sonhos

lavei o céu com sabão das minhas angustias

e vi todas as tuas estrelas-gémeas a desaparecerem

fumeguei todas as imaginações

do meu laboratório pensamental

e por um instante

senti-me liberto deste amor infungível

por um tempinho

senti-me leve

de mim

de ti

de nós envolto na querença uníssona

Essa era a minha revolta

Mas tudo isso durou enquanto durou

Doeram-me as minhas próprias decisões

E vi o tempo a ferir-se

As saudades a sangrarem reconciliação

A zanga a pedir perdão

O grande sinal foi mesmo

quando a Paixão tossiu forte

e eis-me aqui,

no desejo incontido,

de volta ao compasso passional

que me fez-faz o poeta sentimental

da dimensão deste Amor incomensurável.

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