OS VALORES AFRICANOS

Cada povo tem os seus próprios valores que lhe são distintivos. Cada população-etnia, região-zona, clã-tribo tem suas peculiaridades que lhes distinguem dos demais. Na tribo SENA, por exemplo, em casos de uma viagem, é normal que o indivíduo receba conselhos dos mais velhos para não se despedir de todo o mundo, senão de um grupo muito aconchegado e restrito de familiares e amigos. Cresci pensando que essa prática fosse apenas de nós, os Ma-sena ou Assena - (plural de sena): uma das tribos de Mozambique, ocupando as províncias de Sofala, Manica, Tete e Zambézia e uma parte da República do Malawi), mas em convívio com outras tribos e etnias moçambicanas, essa prática pareceu-me ser o denominador comum dos moçambicanos. A consubstanciar essa afirmação, trabalhei com algumas camaradas de Inhambane e Manica, e sempre que viajavam de férias ou em missões de serviço, nunca se despediam de mim e de outros colegas do dia-a-dia. Também nunca diziam quando é que estariam de regresso da tal viagem.

Quis saber dos motivos desse comportamento, e uma colega de Nampula disse-me: “Elas fazem isso que é para se defenderem dos possíveis pensamentos negativos nossos...diga-se, têm medo de serem enfeitiçadas...”

É também comum, entre os moçambicanos, muito mais das zonas rurais e suburbanas, não se pedir sal, fogo e tabaco depois das dezoito horas. Nas cidades africanas, sendo o prolongamento do campo, a mesma prática é também observada com certa acuidade. Aliás, o espaço que responde pela designação de cidade não é só habitado pelos ditos citadinos de nascença, como também pelos campestres e indígenas de diferentes origens, e esses indivíduos fazem questão de trazer consigo valores mais sólidos e impagáveis de toda uma vivência social.

Nas sociedades tradicionais moçambicanas, uma mulher que estiver menstruada é normalmente interdita de pôr sal na comida e, na pior das hipóteses, de cozinhar para os outros. Nas mesmas sociedades, um indivíduo que tenha mantido relações sexuais, no dia anterior ou no próprio dia, não tem permissão para pegar-segurar uma criança recém-nascida ou que ainda esteja na fase de amamentação.

Henrique Junod, antropólogo suíço, escreveu no seu livro “Usos e Costumes dos Bantu”, no século XIX, sobre as diversas lendas e costumes dos povos do sul de Moçambique, que na sua essência, são práticas de muitas sociedades africanas.

Percorrendo o mundo do conhecimento tradicional africano, torna-se imperativo que haja um novo olhar sobre aquilo que se acha estar fora dos carris da civilização. Na verdade, aquilo que se apelida de superstição não é mais do que um conhecimento fora do comum, que escapou à nossa interpretação, e como tal, é tão válido como todos os outros conhecimentos a que atribuímos uma lógica própria de aceitação e de convívio.

Superstição, de “superstitio” significa “crenças que ficam”; ou por outra, super+stare, que é “o que está por cima”.

Aquilo que chamamos superstição é o que ficou do que se transmitiu ao longo dos tempos, e que, muitas vezes carece da nossa compreensão.

Mas será que basta não entendermos uma coisa para que ela não nos possa ser útil?!

Hoje, leccionam-se, nas ESCOLAS SUPERIORES do meu país, cadeiras de sociologia, antropologia e outras de valores imensuráveis para o conhecimento e entendimento das sociedades africanas e, quiçá, universais. No fim de cada quatro-cinco anos, muitos estudantes, em vez de optarem por estudar, in loco, os FENÓMENOS SOCIAIS E ANTROPOLÓGICOS AFRICANOS, escudam-se em bibliografias universais, que nem sempre esclarecem, por exemplo, as causas de se proibir um indivíduo com ‘corpo quente’ de segurar uma criança em aleitação; as razões de se proibir a saída de sal de uma casa para outra, depois de uma determinada hora da noite; os porquês de todos os curandeiros, para procederem a um ritual de exorcismo e em casos de haver necessidade de se sacrificar animais, nunca pedirem um porco; uma gazela; um rato, mas é sempre um cabrito (de cor xis, e com barbas de tamanho y), uma galinha (de tipo e de cor alfa), ou um....

No meu continente africano, somos nós mesmos, os ditos intelectuais e elites de referência, que não nos preocupamos com o saber rudimentar do indígena e com a sua arte de sobrevivência.

E o nosso NÃO ao que é do nosso próprio reportório cultural dá razão aos que nos colocam-querem à margem da CIVILIZAÇÃO HUMANA.


Florentino Dick Kassotche


Reritado do livro Moçambicanamaniamente
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